MAMUTEFOTO
Não fazia idéia...

A Sombra do Sol

A Sombra do Sol foi realizada em 2017, no agreste e sertão pernambucano, na época a região passava por um período de seca excepcional e não recebia seu ciclo regular de chuva por 6 anos. Nesse local, tão distante da maioria dos brasileiros, que hoje vivem em grandes centros urbanos, fomos buscar histórias, perspectivas e conhecer não só o cenário que se apresentava, mas as pessoas, as crenças, os desejos e as angustias que vivem lá. Voltamos transformados por um Brasil que já tínhamos ouvido falar, mas que mesmo assim não fazíamos idéia da existência. Transformados pela descoberta de dificuldades que passam longe da nossa capacidade de imaginação e profundamente tocados por pessoas que apesar dessas dificuldades conseguem destilar imensa força, alegria e generosidade.

Não fazia idéia...

Não fazia idéia...

O “Poligono das Secas” no Brasil, é uma região de beleza inimaginável, apesar de toda a aspereza que cerca as vidas dos que vivem lá. Não há muito que se possa fazer para lutar contra a natureza ou o clima desse lugar, a única esperança é pedir aos céus por chuva e esperar que um dia ela chegue. É um espaço que não foi povoado por desejo, mas por profunda necessidade. Exploradores e comunidades de ex escravos tentaram encontrar, nesse local inóspito, prosperidade pautada na idéia de liberdade. Até hoje, porém, viver por lá é uma luta diária. A liberdade, nunca foi tão cara.

Não fazia idéia do quanto vale um punhado de farinha...

Não fazia idéia do quanto vale um punhado de farinha...

Mais do que um alimento, a mandioca se tornou um forte traço cultural na região. Por ser um planta extremamente resistente, é uma das poucas variedades de alimento que é possível produzir ali. Com a mandioca, é produzida a nossa conhecida farinha, que é consumida quase que diariamente principalmente nas regiões Nordeste e Norte do país (algumas vezes como o único elemento no prato). Na região, possuir uma “Casa de Farinha” como são chamadas os locais de produção, é um símbolo de poder, pertencimento e sucesso. Portanto, esse produto cotidiano e pouco valorizado, adquire enorme importância para a estruturação da vida dos indivíduos e da sociedade local e ao mesmo tempo restringe a "prosperidade" que fica intimamente conectada à percepção de valor da farinha. Esse cenário de pouca chuva, baixa valorização do produto, êxodo rural e surgimento de grandes indústrias em outras regiões do país, tem feito com que aconteça o declínio da produção e a "morte" de muitas casas de farinha e, infelizmente, do conhecimento produtivo, cultural e histórico associado a elas.

Não fazia idéia, que entrar cedo no trabalho se contaria em anos em vez de horas...

Não fazia idéia, que entrar cedo no trabalho se contaria em anos em vez de horas...

As crianças que nascem lá, crescem, em muitos casos, cercadas pelo espaço vazio. Suas relações não se estendem muito além da família e sua única perspectiva de vida, muitas vezes, é continuar o trabalho dos seus pais e avós. Não é raro ver crianças com menos de 10 anos ajudando seus pais no cultivo de mandioca e nas Casas de Farinha. Também não é raro ouvir histórias de quem desde cedo só conhece esse mundo. Apesar disso é comum ouvir pessoas que falam do seu trabalho com um sorriso no rosto, que transbordam orgulho do seu conhecimento da terra, do que produzem e da sua história.

Não fazia idéia que a escravidão ainda é tão viva...

Não fazia idéia que a escravidão ainda é tão viva...

Dentro da área delimitada pelo Polígono das Secas existem muitas comunidades Quilombolas, formadas durante a resistência dos escravos no período colonial. Nessa região de enorme pobreza, os mais pobres, são os que vivem nessas comunidades. Em pequenas propriedades rurais, muitos contam com não muito mais que as próprias mãos para sobreviver. Esse cenário evidencia, que apesar da abolição legal da escravidão, em termos práticos e sociais, ela ainda permanece muito viva.

 .  .  .

.

.

.

Não fazia idéia da enorme força das mulheres...

Não fazia idéia da enorme força das mulheres...

Em uma comunidade de caráter machista, a tarefa de descascar as mandiocas é feita quase que exclusivamente por mulheres. Os homens justificam essa separação afirmando que essa tarefa é a mais fácil e portanto é o trabalho delas. As mulheres porém, em segredo, contam outra história. De acordo com elas, os homens não aguentam ficar na cansativa postura que o trabalho exige. No processo, as mulheres chegam a passar 12 horas sentadas no chão ou em pequenos bancos de madeira descascando, literalmente, toneladas de mandioca. Após tudo isso, na frente dos homens, ainda afirmam: esse é o trabalho mais fácil. Talvez haja mais nessa afirmação do que entendemos à primeira vista.

Não fazia idéia de que família não se faz com sangue, mas com confiança...

Não fazia idéia de que família não se faz com sangue, mas com confiança...

A agricultura familiar é o que caracteriza toda a produção da região. São milhares de pequenas propriedades que lutam para produzir seu próprio alimento e quando possível vendem o excedente. Não existem grandes produtores como estamos acostumados a ver em outras regiões do Brasil, existem pouquíssimos contratos legais, em sua enorme maioria são todos pessoas ajudando e sendo ajudados por suas famílias. Nesse contexto, vale a pena lembrar que família vai além dos laços sanguíneos mas se constitui principalmente por laços de confiança e empatia.

Não fazia idéia, que só com uma fogueira, se faz uma festa...

Não fazia idéia, que só com uma fogueira, se faz uma festa...

Em Junho acontece a festa mais importante da região e talvez a mais tradicional das festas Brasileiras, o São João. Apesar de ser uma festa conhecida a todos nós brasileiros é nesse local que ela ocorre com maior intensidade. Lá o São João tem tamanha importância que chega a superar inclusive grandes comemorações como o Natal e o Carnaval. No dia 24 de Junho, na noite mais longa do ano, em todas as casas há uma fogueira. Todos recebem a família e os amigos para celebrar. O fogo, sempre presente, é um símbolo de origem pagã e posteriormente apropriado pelo contexto religioso que carrega superstições e significados relacionados ao renascimento, à fertilidade, ao casamento e ao fortalecimento dos laços familiares. Talvez poucos lembrem o porque da existência da fogueira, mas sua importância e presença jamais são esquecidas.

Não fazia idéia, de que o passado é tão presente...

Não fazia idéia, de que o passado é tão presente...

Entrar em uma Casa de Farinha é ver uma mistura de tempos. De um lado vemos técnicas e ferramentas que são usados da mesma forma por séculos, de outro vemos o anseio pelo consumo e pelo “progresso” que passam pela mente de tantos que vivem ali. Penso que as Casas de Farinha acabam incorporando, ou talvez sejam o mero reflexo de tantas coisas que vemos na região. Talvez sejam também o reflexo da nossa constante busca do entendimento da nossa identidade e do nosso valor. Vivendo em uma realidade tão distante da nossa, ao final pude ver o quanto somos parecidos. Pude ter clareza do quanto carregamos nossa história para o presente e o quanto é difícil, mesmo em um contexto onde o novo é a regra, nos livrarmos do passado. Talvez esse seja o problema, talvez não tenhamos que nos livrar do passado nem tentar simplesmente substituí-lo pela história - aparentemente mais agradável - de outros, mas, olhando para ele, para seus erros e acertos, para suas dores e alegrias, construir o nosso presente.