O que aprendi fotografando uma festa de criança

 

  Gosto de me chamar de fotógrafo documental, fotógrafo de viagens, fotógrafo de natureza. Gosto de me imaginar sempre viajando o mundo para documentar lugares incríveis, pessoas e culturas diferentes ou até viajar para cantos remotos do próprio Brasil para descobrir e contar histórias que poucos viram ou ouviram. Gosto da idéia de dar voz às pessoas "esquecidas" , gosto de contar as histórias escondidas, gosto de sentir que de alguma forma estou buscando a verdade.

  Infelizmente esses trabalhos como fotógrafo documental são raros, muitas vezes dependem mais da minha iniciativa do que de um "cliente". Acontece que as vezes me procuram para o que dizia a mim mesmo que nunca faria: Um aniversário de criança. Sempre me neguei a fotografar eventos pois tenho como preconceito que as pessoas contratam os fotógrafos nessas situações mais para concretizar uma expectativa do que para se surpreender com o olhar de um profissional. Dessa ultima vez foi diferente, me pediram, com todas as palavras, o meu olhar. Desmontaram minha justificativa, e então lá fui eu!

  Me preparei como me preparo para qualquer trabalho fotográfico, fiz uma conferência geral nos meus equipamentos, formatei meus cartões de memória, carreguei minhas baterias, limpei minhas câmeras e lentes , arrumei minha bolsa com tudo que achei que fosse necessário. Cheguei mais cedo no local da festa para estudar os ângulos mais interessantes, para fotografar o cenário e depois de tudo isso me sentia pronto para começar mais um trabalho como fotógrafo. Pensando que esse seria talvez um dos trabalhos mais fáceis que iria fazer. Só que não foi bem assim.

  Como fotógrafo documental, quando você se habitua com seu tema, quando passa algum tempo no lugar e com as pessoas que vai fotografar você constrói uma certa habilidade de previsão das coisas que vão acontecer, assim consegue quase mentalizar a fotografia antes de fazê-la, depois disso basta se colocar em uma boa posição e esperar o "momento decisivo". Comecei a festa seguindo esse mesmo comportamento. Achava um lugar interessante, observava um grupo ou alguma criança em particular que queria fotografar e esperava o momento. SÓ QUE ELE RARAMENTE ACONTECIA! Para as crianças, o mundo é interessante demais, não há tempo para se perder em uma atividade só, assim elas mudam de interesse o tempo inteiro e toda minha capacidade de previsão sumia a cada mudança na atenção delas. 

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  É óbvio que teimoso como sou, não mudei a estratégia logo de início, por isso, continuei falhando. Até que de repente, me abaixei e me aproximei de uma das crianças e então, percebi que elas além do interesse incessante pelas coisas novas, não possuem vaidade. Minha câmera apontada para o rosto delas não era um problema ou um incômodo, como para tantos adultos que estou habituado a fotografar, percebi que eu não precisava me tornar "invisível" ou tranquilizar o fotografado para que esse se sentisse à vontade e "esquecesse" da minha câmera. Minha câmera, e eu por trás dela, eram mais uma coisa interessante, mais uma descoberta a ser explorada por essas crianças. A partir daí tudo ficou mais fácil e para meu alívio, consegui começar a fazer as fotos que queria.

  Isso me fez pensar, me voltei à lembrança do quanto nossa vaidade nos atrapalha, o quanto vivemos uma vida inteira de poses, sorrisos rasos e sem motivo. O quanto paramos de nos interessar pelas coisas, pelos outros. O quanto aceitamos um caminho e uma verdade única e seguramos firmes a este caminho sem mudar de direção. Infelizes, mas sempre sorrindo. Me lembrei também dos lugares mais "pobres" que fotografei (e uso pobres entre aspas porque pobreza é um conceito muito relativo) nos quais poucas pessoas ao serem fotografadas sorriam para as fotos. A falta do sorriso, de forma nenhuma denotava tristeza, mas sinceridade. Transparecia uma série de outros sentimentos e mensagens. Essas pessoas aprenderam, ou nunca se esqueceram, de falar com os olhos, de não esconder o que estes falam mostrando os dentes. Essas pessoas, por não terem quase nada a sustentar, são como crianças, sustentam apenas a verdade de serem o que são. De sentirem-se tristes, orgulhosos, raivosos, decepcionados, tímidos e por isso, muitas vezes também alegres.

  Esse post não entra na categoria de dicas de fotografia, mas se você começou a ler procurando como fotografar em uma festa de criança, eu te dou uma, abaixe-se, deixe que elas te vejam, deixe o interesse delas ser despertado por você e elas farão a maior parte do seu trabalho. Essa dica não vale só para fotografar crianças, vale para fotografar todos e vale principalmente para a vida. Deixe-se ver.

 

"Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos..."

Caio Fernando Abreu