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Tabus fotográficos - Direção e edição na fotografia documental.

  Essa semana, ao visitar o lançamento do livro Magna, do fotógrafo Cristiano Xavier, em Belo Horizonte, recebi um pedido da TvUNIBH para dar uma opinião a respeito da edição ou direção de fotografias em um projeto documental. Acredito que esse é um tema que tem passado pela mente de muitas pessoas após o caso do fotógrafo Marcio Cabral e a desqualificação do premio concedido pelo Museu de História Natural de Londres em 2017. Para quem não ouviu ou leu nada a respeito a foto foi desqualificada por suspeita de que o animal que aparece na imagem, um tamanduá, seria na verdade um bicho empalhado e portanto, a foto foi considerada manipulada e não conforme às regras do concurso. Após dar a entrevista continuei pensando muito sobre o assunto e por isso resolvi escrever esse post.

  Não estou aqui para julgar a foto ou o fotógrafo, acho que cada um tem sua história e seus motivos em cada escolha que faz. Mas quero discutir um tabu da fotografia e mais especificamente da fotografia documental. Esse tabu é o da edição ou direção de fotos ou das cenas fotografadas. Já ouvi algumas pessoas descreditando grandes fotógrafos por afirmar que as personagens nas fotos foram posicionadas ou posaram para a imagem, ja ouvi críticas também em relação ao uso de softwares de edição ou ajuste de imagem afirmando que isso era de certa forma "desleal" não era a realidade e portanto não poderia ser chamado de fotografia documental. 

  Quero então começar com duas perguntas: O que é a realidade? O que é a verdade?

  Considero essas perguntas chaves para qualquer boa fotografia. Se você já acompanha o meu blog sabe o quanto eu defendo que a fotografia é um ato que exige muito autoconhecimento e uma atividade extremamente pessoal e individual. Ao fotografar algo ou alguém também fotografamos a nós mesmos, ou pelo menos a nossa maneira de ver e interpretar o mundo. De certa maneira, contamos a "nossa verdade" nas fotos que produzimos. Volto à idéia de que a fotografia não é um registro (você pode ler mais sobre isso no post "Fotografia não se ensina, se aprende"), mas uma mensagem e defendo que essa mensagem deve sim, conter verdade. Para ser mais direto, não vejo problema algum na direção de uma cena ou na pós produção de uma foto se o fotógrafo mantiver íntegra e transparente a sua mensagem. A edição ou interferências nas fotos sempre fizeram parte da produção desses significados e sei o quanto uma boa edição pode tornar uma foto mais efetiva em sua comunicação. O problema ocorre quando esse artifício é usado para benefício apenas do fotógrafo e não da mensagem. 

  A documentação de um acontecimento/fato/atividade/cultura é e sempre será a interpretação, não isenta de opinião ou de viés por parte do fotógrafo. A própria presença do fotógrafo já provoca alteração ou direcionamento do momento fotografado. A escolha do enquadramento, do ângulo dos elementos que aparecem dentro de um quadro limitado por si só já são direções e edições, são um recorte, uma pequena parte de história. Então digo com muita certeza que não existe uma fotografia "pura" ou em que esteja ausente a influência pessoal do fotógrafo. 

  Mas onde estão as fronteiras da edição ou da direção? Como ter controle sobre a imagem sem que a "documentação" seja comprometida? Isso é a pergunta que incomoda muita gente e me incomodou por muito tempo. Acredito que a fronteira está no nosso conhecimento à respeito do tema. Corremos o risco de passar a fronteira assim que entramos em regiões desconhecidas onde não conseguimos defender nossas escolhas ou onde elas se tornam apenas caprichos estéticos que podem interferir na percepção de um fato. Existe porém uma maneira de se aproximar da realidade e tornar nossa verdade cada vez mais precisa. Se você já ouviu as histórias de famosos ensaios fotográficos, sabe que muitas vezes os fotógrafos passam a viver com seu assunto por meses, as vezes até anos e assim, diluem a influência que a sua presença tem no momento inicial. Outro motivo de se fazer isso é tentar aprender a retratar a realidade pela perspectiva do "outro", é entender como o fotografado quer contar sua história e sua verdade e não como o fotógrafo, externo à situação, a vê ou a interpreta. Ouvir e tentar ver as muitas versões que uma mesma história pode ter, permite nos aproximar da realidade, apesar de nunca alcançá-la por completo. O tempo nos ajuda enxergar padrões, excessões, a identificar alguns erros de julgamento e, mais importante, nos ajuda a entender as aspirações, os medos, as angustias os orgulhos e as alegrias das nossas personagens e é isso que faz uma boa fotografia documental.

 Essa é uma imagem que para mim ilustra muito bem o que penso no texto acima e para isso vou contar a história dela para vocês:  Essa foto foi tirada no agreste Pernambucano em 2017, o local é uma "Casa de Farinha" que é como são chamadas as fábricas de farinha de mandioca na região. O local estava repleto de pessoas, como essa mulher haviam pelo menos mais quatro descascando as mandiocas, e isso era uma cena padrão em todas as casas de farinha que visitei. Passei duas semanas na região conversando com muitas pessoas e repeti a pergunta para muitos: Por que só as mulheres descascam a mandioca? Todas as vezes a resposta foi a mesma: "Porque é o trabalho mais leve.". Algumas mulheres, porém, me contavam em segredo que a verdade é que os homens não aguentavam a jornada de quase doze horas sentados sobre as próprias pernas descascando literalmente toneladas de mandioca por dia.  Somente entendendo essa realidade e ouvindo essas pessoas tive a liberdade para produzir uma imagem que mostra uma mulher sozinha, com uma pilha de mandioca em suas costas, curvada, vista de cima. Com ela, queria mostrar o peso da tarefa, mas também a opressão de mesmo fazendo um trabalho tão extenuante ter que ouvir e repetir para quem a pergunta: " Porque é o trabalho mais leve.". Se pensarmos na realidade que presenciei ali em nenhum momento vi alguma mulher realizando essa atividade sozinha, não vi elas serem "obrigadas" ou oprimidas para fazerem o que fazem porém, vivendo um tempo próximo ao assunto puder perceber o peso e a pressão social que existe sobre elas. Só assim, pude tanto imaginar fazer essa imagem quanto tenho argumentos para defender que ela carrega muita verdade. Talvez mais verdade que uma foto que mostrasse a atividade de descascar mandioca como ela é em sua forma "crua" ou "pura".

Essa é uma imagem que para mim ilustra muito bem o que penso no texto acima e para isso vou contar a história dela para vocês:

Essa foto foi tirada no agreste Pernambucano em 2017, o local é uma "Casa de Farinha" que é como são chamadas as fábricas de farinha de mandioca na região. O local estava repleto de pessoas, como essa mulher haviam pelo menos mais quatro descascando as mandiocas, e isso era uma cena padrão em todas as casas de farinha que visitei. Passei duas semanas na região conversando com muitas pessoas e repeti a pergunta para muitos: Por que só as mulheres descascam a mandioca? Todas as vezes a resposta foi a mesma: "Porque é o trabalho mais leve.". Algumas mulheres, porém, me contavam em segredo que a verdade é que os homens não aguentavam a jornada de quase doze horas sentados sobre as próprias pernas descascando literalmente toneladas de mandioca por dia.

Somente entendendo essa realidade e ouvindo essas pessoas tive a liberdade para produzir uma imagem que mostra uma mulher sozinha, com uma pilha de mandioca em suas costas, curvada, vista de cima. Com ela, queria mostrar o peso da tarefa, mas também a opressão de mesmo fazendo um trabalho tão extenuante ter que ouvir e repetir para quem a pergunta: " Porque é o trabalho mais leve.". Se pensarmos na realidade que presenciei ali em nenhum momento vi alguma mulher realizando essa atividade sozinha, não vi elas serem "obrigadas" ou oprimidas para fazerem o que fazem porém, vivendo um tempo próximo ao assunto puder perceber o peso e a pressão social que existe sobre elas. Só assim, pude tanto imaginar fazer essa imagem quanto tenho argumentos para defender que ela carrega muita verdade. Talvez mais verdade que uma foto que mostrasse a atividade de descascar mandioca como ela é em sua forma "crua" ou "pura".

 

   Fotografar o que pessoas fazem é muito fácil, fotografar o porque delas fazerem o que fazem é o que faz um grande fotógrafo.

   Acrescento mais um pensamento. Um amigo meu uma vez me disse que precisamos acabar com a cultura da foto única. Que uma boa história só pode ser contada por meio de uma série de fotos e pelas minhas experiências fotográficas, isso, principalmente quando fotografo pessoas, tem me ajudado muito. Acrescentar mais fotos à história nos permite "filtrar" melhor o que estamos vendo, nos ajuda a conectar os pontos, entender o cenário e o contexto. Produzir séries de fotos tem sido um exercício constante para mim e achar os momentos chave, a síntese de um lugar e de um tempo são um imenso desafio mas afirmo que igualmente grande é o prazer de conseguir entender e reviver o momento por meio da história contada nas imagens. (Se quiser ver algumas séries minhas te convido a passar pelo meu instagram)

  Para terminar gostaria de falar de mais um detalhe que faz bastante diferença, o texto. Muitos fotógrafos não gostam de dar nomes ou de legendar suas imagens, defendem que a imagem deve falar por si. Concordo que uma boa imagem dispensa explicação, por isso acho que o texto nunca deve explicar a imagem mas sim contextualiza-la. O texto pode deixar claro o porque de termos escolhido aquele momento e o porque da pessoa ter se mostrado da forma que se mostrou. O texto pode inclusive justificar ou deixar claro escolhas que sem ele seriam repudiadas ,ele fortalece a mensagem da foto ele situa o observador e confesso que muitas vezes me situa enquanto fotógrafo.  

 

"Na fotografia há uma realidade tão sutil que ela se torna mais real que a própria realidade."

Alfred Stieglitz