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Saia do automático!

  Ouço muitos amigos que compraram câmeras "profissionais" confessarem que não saem do modo automático da câmera e que isso é de certa forma frustrante. Bom, se você veio parar nesse post com esse desejo, eu vou te contar uma coisa que também vai te frustrar um pouco: eu não vou te ensinar agora a sair do modo automático da câmera, vou te dar dicas de como sair do SEU MODO AUTOMÁTICO. (Agora se você deseja muito sair do modo automático da sua câmera, me manda uma mensagem aqui no "Entre em contato!" e vamos combinar um curso, tenho certeza que o meu curso particular é bem mais acessível do que você espera.) De qualquer forma aconselho ler esse post até o final, acredito que com ele sua fotografia será melhor, mesmo que continue usando o modo automático de sua câmera ou até seu celular.

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  Vou começar te contando uma história que por muito tempo me incomodou bastante e que só a pouco tempo fez sentido para mim. Toda minha família é inclinada para o campo das artes e, por afinidade, meus pais tem amigos que são grandes fotógrafos e cineastas. Antes de começar minha jornada pela fotografia sempre perguntava para esses amigos de meus pais sobre equipamentos e os modos de usá-los e não era raro eles me falarem para fotografar no modo automático da câmera. Sempre achei que era preguiça da parte deles, não querendo me ensinar a dominar o tão desejado modo manual. Hoje tenho clareza que em nenhum momento foi preguiça, mas diante da experiência deles e também da que fui adquirindo nos últimos anos como fotógrafo, ficou claro que os ajustes manuais da câmera são exatamente o que o nome diz, são AJUSTES. E quem começa qualquer coisa pelos ajustes? 

  Fotografia, e muitas outras manifestações artísticas, são a capacidade de ver. Vale prestar atenção nisso, digo VER e não ENXERGAR. Ver é muito mais do que usar os olhos, é uma atividade ativa e que demanda interpretação pessoal, ver é uma habilidade única a cada pessoa e acredito que raramente duas pessoas veem a mesma coisa da mesma maneira. Sendo menos filosófico, digo que para produzir uma boa fotografia não basta produzir uma boa imagem você precisa entender o porque de produzir essa imagem. 

  Volto então a idéia de que, para fotografar melhor, você precisa sair do seu modo automático. É muito confortável seguir uma receita ou reproduzir algo que consideramos que funciona, digo isso não somente na fotografia como na vida de modo geral. Por exemplo, você ja se perguntou por que você faz o que faz do jeito que faz? A resposta muitas vezes será "Porque me ensinaram assim" ou "Porque todo mundo sempre fez desse ou daquele jeito" e assim, comportamentos ou jeitos de fazer que talvez um dia ja tiveram significado acabam virando simples repetições automáticas.

  Proponho então um exercício: Pegue sua câmera, seu celular ou qualquer objeto que faça fotos e passe um dia fotografando coisas que achar interessante, não fique se corrigindo ou pensando muito, deixe o seu modo automático agir. No fim do dia pegue todas as fotos que fez e se faça algumas perguntas:

1. Por que escolhi fotografar O QUE fotografei?

2. Por que escolhi fotografar COMO fotografei?

  Anote suas respostas, quantas forem elas. No dia seguinte, faça o exercício de fotografar as mesmas coisas que fotografou (mesmo que não seja exatamente a mesma cena, que seja o mesmo assunto) mas pense em como fotografar de outro modo. No fim do dia analise novamente as imagens e repita as perguntas. Faça isso até que consiga responder de forma simples as suas escolhas.

  Esse exercício não vai fazer você se livrar totalmente do seu modo automático, na verdade acredito que é um exercício para toda a vida tentar viver no modo "manual", mas ele vai te ajudar a ver que para cada "problema" existem muitas possibilidades e que temos algumas escolhas a fazer na direção que tenha mais sentido ou significado para nós. Essa consciência vai te ajudar a produzir coisas muito mais interessantes e originais, porque afinal você estará entendendo e praticando o seu jeito de ver o mundo e esse jeito é só seu e impossível de ser reproduzido.

  Quero também deixar claro que apesar desse exercício o ato de fotografar sempre será, enquanto executado, uma tarefa muito intuitiva e pouco racional. Os questionamentos que fazemos entre esses atos, porém, nos ajudam a afiar essa intuitividade e assim produzir algo mais próximo do que queremos.

  Produzir significados é uma tarefa muito difícil e um exercício de longo prazo, mas os resultados são extremamente recompensadores. 

  Depois me conta como foi fazer o exercício? Me conta se ele te ajudou? Me fala das dificuldades e descobertas? Adoro conversar sobre essas coisas e para mim será uma grande alegria poder trocar com vocês.

Para terminar mais uma grande frase:

"Eu realmente acredito que há coisas que ninguém veria se eu não as tivesse fotografado."

Diane Arbus