MAMUTEFOTO

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Os rompimentos que não vemos.

Dia 25, estava em casa, sentado em frente a meu computador trabalhando quando recebi uma mensagem da minha esposa no celular, uma notícia, o título dizia: Barragem se rompe e lama invade Brumadinho, na Grande BH.

Acho curiosíssima a nossa memória sensorial, lembro de uma sensação quase idêntica quando tinha apenas 15 anos e vi um avião entrar em uma enorme torre comercial, como a maioria de vocês deve lembrar. Uma grande diferença porém tornava a sensação mais viva, tudo acontecia a meia hora de distância da minha casa. Meu primeiro impulso foi pegar meu capacete, minha moto, meu equipamento fotográfico e correr para o local. Desde 2016 tenho trabalhado em um projeto que chamo de “Paisagens do Ferro”, que se iniciou exatamente 1 ano após o rompimento de Mariana, o tema da mineração portanto tornou-se parte importante da minha história como fotógrafo. Antes de sair porém liguei a televisão e vi cenas que me paralisaram. Passei a tarde de sexta feira imóvel em frente às notícias e cenas que se repetiam. Acordei com uma angustia enorme no sábado e sabia: precisava ir para lá! Precisava não só entender o que estava acontecendo, precisava perceber o acontecido. Não bastavam dados, números e cenas feitas de helicópteros. Precisava sentir, precisava olhar nos olhos das pessoas ouvir o que elas queriam gritar para o mundo. Precisava da parte qualitativa do acontecimento que tanto falta na grande maioria dos meios de comunicação.

Fui.

Não vou contar em detalhes qual foi a experiência de estar lá, não é o objetivo desse texto. Quero contar porém que foi uma experiência que me drenou por inteiro. As pessoas que moram no local não gritavam. Na verdade, elas falavam baixo. Muitas repetiam algumas frases que para mim não tinham muito contexto mas que precisavam, por algum motivo, ser expressas. Uma dessas frases foi repetida muitas vezes por um senhor, que encontrei sentado à frente de sua casa, a poucos metros da lama. A frase era: “Moro aqui há 40 anos.” ouvi essa frase sair de sua boca pelo menos 3 vezes em um conversa de não mais de 15 minutos. O que ele queria dizer com essa curta frase, eu só posso imaginar. Os olhos dele, porém, falavam muito. Eram preenchidos de vazio intenso, uma desolação, uma tranquilidade forçada de quem não tem poder de reação diante de algo que mudou tão repentinamente tudo o que ele conheceu por tanto tempo. No meio disso, me contou que seu pai havia participado na inauguração da mineração na cidade, que acontece desde 1950. Isso me fez pensar. Me fez pensar muito.

Pensei.

Se você, que está lendo esse meu texto, tem acompanhado meu trabalho nos últimos tempos, sabe que o projeto que tenho me dedicado ultimamente fala de uma questão que aparentemente não tem absolutamente nada a ver com esse evento tão recente. Se você ainda não acompanha te convido a acessar #serieimateriais para conhecer esse meu projeto. A série Imateriais fala de hábitos e conhecimentos que tem se perdido com o tão desejado “progresso”, fala principalmente das pessoas que ainda mantém vivos esses conhecimentos. Antes de ingressar nesse projeto acreditava que as pessoas que ainda detinham esses conhecimentos em extinção o faziam de forma passiva, como um fluxo normal da vida. O que percebi, porém, é que muito pelo contrário, há um papel muito ativo nisso. É muito difícil manter algo vivo quando todo mundo diz que aquilo já não vale mais nada. Mas onde quero chegar com isso? Onde está a relação?

Volto à história do senhor que conheci em Brumadinho, Rui. Rui não me contou muito sobre o trabalho de seu pai no início da mineração de Brumadinho, mas fiquei imaginando como era , de forma geral, o cenário da região nessa época. Até hoje, o local por onde a lama da barragem passou é uma região de predominância rural. Por esse motivo, imagino, a maioria das vítimas foram os próprios funcionários da empresa e não “civis”. Imagino que em 1950, a presença urbana devia ser ainda menor. Imagino que a maior parte da população devia sobreviver do cultivo da terra, nos muitos sítios da região. Imagino que os conhecimentos eram transmitidos de pais para filhos e que ser um bom produtor devia ser uma fonte de orgulho e de prestigio social. Imagino que para continuar produzindo, as pessoas deviam conhecer muito bem seu ambiente, conhecer cada uma das plantas, como elas se comportam nas diferentes estações e como reagem às variações climáticas. Deviam conhecer o quanto de descanso a terra necessitava para não se esgotar e como era necessário respeitar isso para que seus filhos e netos não morressem de fome no futuro.

Se inicia uma mina.

Com o tempo, os filhos e netos que antes tinham como grande referência de sucesso e sabedoria os pais e avós começam a olhar para os grandes empresários andando em seus carros imponentes e morando em casas onde basta uma palavra e tudo é servido em suas mesas. Aqueles meses e anos de espera para a colheita não são necessários na vida desses homens, tudo é imediato, tudo é perene. Eles são os novos heróis, as novas referências de sucesso e prestígio social. Agora, todos querem ser como eles e, se no mundo deles não há espera, para que conservar a terra que leva anos para nos dar o que queremos? Vamos cavá-las e retirar o precioso minério agora! Vamos usar esse minério para termos mais e mais em menos tempo. Não interessa mais o que nossos pais e avós tem para nos falar, eles estão presos no passado, não sabem o que é progresso!

O tempo passa…

Os filhos e netos ainda trabalham dia e noite, as coisas chegam a sua mesa sem que eles vejam de onde elas vieram, mas chegam lá a um alto custo, com muito trabalho. Os heróis de terno estão cada vez mais longe, enriqueceram muitíssimo em anos de trabalho de outros. Sua colheita chegou! A mina ja pouco produtiva não tem mais porque funcionar. A barragem, cheia, não precisa mais de atenção.

Não há mais volta…

As pessoas dependem da mina. É só isso que elas sabem fazer. Seus pais e avós foram deixados no passado e seus conhecimentos sobre a terra já não são possíveis de acessar. Já foi tudo soterrado na lama de um passado sem prestigio, solidificado, inalcançável.

A mina não depende mais das pessoas.

A barragem se rompe.

Pessoas morrem, memórias morrem, identidades morrem. Contamos em números, mas esses números não nos contam quase nada.

Histórias já morriam há muito tempo.

Gostaria de terminar esse texto dizendo que não sei se essa é a história real de Brumadinho, tudo que escrevi foi um exercício de imaginação baseado em histórias que tenho ouvido nas minhas pesquisas em Minas Gerais. Além disso, quero expressar que concordo que deva haver uma fiscalização muito mais severa na atividade mineradora, de que as questões ambientais devem ser muito mais respeitadas. Peço porém que lembremos de uma coisa que poucos falam a respeito: a preservação da cultura! A necessidade de mantermos vivos conhecimentos que tem um valor imenso e que talvez só entendamos quando for tarde demais. Peço e não tenho dúvidas sobre a importância de que além de um estudo econômico e ambiental, tenhamos estudos culturais. Que as novas empresas aprendam com as pessoas e os conhecimentos tradicionais e se adequem à história delas. Eliminar conhecimentos e tornar pessoas dependentes da sua existência não deixa de ser uma forma de escravização. Que nossos heróis sejam outros! Que nosso tempo seja outro! Que o progresso seja real e não uma história de manipulação, controle e destruição.

Meu mais profundo sentimento a todos os atingidos!

Essa foto foi tirada no dia 26, em Brumadinho, a poucos metros de onde o rio de lama se formou. Não sei a história desses calçados, não sei nem se apareceram aí após o rompimento ou se já estavam lá, abandonados e esquecidos há muito tempo. Só sei que me chamaram muito a atenção e para mim simbolizam muito bem essas vidas, identidades e histórias que foram definitivamente alteradas pela lama.

Essa foto foi tirada no dia 26, em Brumadinho, a poucos metros de onde o rio de lama se formou. Não sei a história desses calçados, não sei nem se apareceram aí após o rompimento ou se já estavam lá, abandonados e esquecidos há muito tempo. Só sei que me chamaram muito a atenção e para mim simbolizam muito bem essas vidas, identidades e histórias que foram definitivamente alteradas pela lama.