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Um país que não sabia ler

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Antes de começar esse texto, quero deixar claro que não sou um historiador, as idéias que irei apresentar aqui são interpretações e opiniões baseadas nos conhecimentos e observações e leituras que tenho feito nos últimos 4 anos e portanto são perspectivas, não verdades absolutas.

Estamos em 2018, depois de 4 anos, ainda mais divididos do que estávamos em 2014. Desde o início do ano me prometi que conheceria o Brasil mais a fundo. Apesar de ter plena consciência de que existe um mar de conhecimento que não estou nem perto de alcançar, não me considero uma pessoa ignorante sobre o nosso país. Muito disso proporcionado pela fotografia, que me permite conhecer lugares, pessoas e vidas que nunca teria a oportunidade se não fosse por ela. Mas sentia falta de embasamento teórico, sentia falta de conhecer bem nossa história e para isso comecei a ler. Para quem ja fez isso, talvez tenha sentido, como eu, que a história do Brasil é muitíssimo complexa, ler sobre ela é uma tarefa de coragem e muito fôlego. Existe porém uma coisa que me ajudou muito que foram essas eleições, principalmente ao cargo de presidente.

Para explicar isso gostaria de fazer uma simplificação comparando duas regiões do Brasil, talvez as que eu tenha mais familiaridade, o Sudeste e o Nordeste. O Nordeste é o início da história (escrita) do nosso país, é filho do colonialismo “puro”, nasceu amargamente da mistura do açúcar com o sangue escravo. O Sudeste “nasce” um pouco mais tarde, é filho de exploradores (no pior sentido da palavra) que buscavam riquezas a altos custos. Cristãos, coletores de “almas” e ceifadores de pagãos. Com o tempo, o açúcar perde seu valor, começa a ser produzido em outros países e o Nordeste é abandonado. Em linhas gerais, se torna terra selvagem, cria-se o estigma de um lugar sem ordem, sem civilidade, sem possibilidade de prosperidade ou de progresso. O Sudeste, pelas descobertas dos bandeirantes (até hoje homenageados na cidade) recebe todos os olhares, o ouro de Minas Gerais, como um grande imã, atrai pessoas de todos os lados do país. Maridos e pais deixam suas famílias pela possibilidade de riqueza, os escravos, sempre presentes, continuam resistindo e lutando pela sua liberdade enquanto cavam minas, carregam pedras e morrem de fome, de cansaço de desgosto. Minas Gerais se torna um lugar caótico, as mulheres, principalmente negras, passam a ter papel fundamental na resistência sendo o polo de informação e permitindo a articulação de fugas e desvios do precioso ouro dos “senhores”. Começa a se instaurar, pelo governo e pela igreja, no desejo de se obter ordem e controle, a idéia de família como instituição sagrada. Junto com a família, o racismo ganha uma nova face, surgem os “homens de bem”, brancos endinheirados que deveriam prosperar casando-se com mulheres brancas e tendo filhos brancos, surgem também os “vagabundos”, negros e mestiços que nunca alcançariam a civilidade. Ainda estamos no século XVIII. Acelerando para tempos mais atuais e de forma bem resumida, o Nordeste permanece como região “esquecida” pelo país até quase o século XXI, por volta do ano 2000, quando recebe forte investimento industrial e o pensamento desenvolvimentista ja presente no Sudeste há tempo. Nesse período de esquecimento do Nordeste, o Sudeste continua a desenvolver-se economicamente, torna-se o polo Industrial e depois financeiro do país.

O esquecimento do Nordeste soa negativo, e se olharmos por uma perspectiva unilateral ele realmente o é. Mas esse esquecimento permitiu que a região se estruturasse como um organismo à parte, fez com que para superar as tantas dificuldades as pessoas se unissem em um sentimento de igualdade e identidade local. Ensinou-os que somente juntos eles poderiam superar esse cenário hostil e somente dividindo as dores isso seria “suportável”. O Sudeste, e principalmente São Paulo, dominado pelas grandes corporações estrangeiras, agora vive o cenário colonial. Os colonizadores não são mais somente os Europeus, mas também Norte Americanos, Chineses, Coreanos, todos com seus enormes prédios espelhados em avenidas abarrotadas de carros, cada vez maiores. Esse momento atual porém tem uma importante diferença, os “novos escravos” agora chamados de colaboradores, gestores, líderes, não oferecem resistência alguma. São incapazes de se unir, pois a única história que compartilham é o trabalho e os dias fechados em um escritório onde acreditam ser capazes de entender o mundo por uma tela de computador, uma planilha ou uma apresentação “diferentona” de uma consultoria. O ideal que dividem é o do sucesso individual, do apartamento bem decorado, do carro novo, das viagens para os mesmos lugares. Para ter isso, lutam cegamente pelos seus senhores e aceitam com sorriso no rosto trocar sua liberdade pelos ferretes das grandes marcas.

E o que isso tem a ver com as eleições?

Ontem, ao ver os resultados do primeiro turno da eleição presidencial, vi a história se repetir como tem feito ciclicamente. O Sudeste continua apoiando o pensamento explorador e desenvolvimentista. Continua, sem nunca assumir, a propagar a discriminação como forma de controle. A Família e os “Homens Bons” continuam sendo o hino da ordem e progresso . Os escravos contemporâneos não querem a liberdade, querem somente tornar-se senhores nem que para isso tenham que explorar e escravizar todos a sua volta. O Nordeste porém parece aos poucos estar despertando. Por um duro caminho, algumas pessoas entenderam que a força motriz de um país são as próprias pessoas, não o dinheiro, não a economia. Relembraram que nossa identidade é importante, que não devemos pagar o “desenvolvimento” com nossa história, com nossas conquistas, com nossa liberdade. Ouço muita gente dizer que o Nordeste vota no PT por causa do Bolsa Família, isso é falar a língua do Sudeste e olhar o outro somente pelos seus olhos, os quais só conseguem ver o dinheiro e a prosperidade financeira como comandantes do movimento e da vida.

Eu estive no Nordeste algumas vezes em pesquisas que fiz e tenho uma hipótese do porque eles apoiarem o PT: acho que pela primeira vez um partido político e ,mais que o partido, as pessoas que o compõe, foram até lá ouvir suas histórias, estiveram presentes, olharam nos olhos do povo que foi esquecido por séculos. Muito mais que comida, deram voz às suas bocas. O Nordeste não precisa do Bolsa Família, ele é forte o suficiente para viver sem isso, ele só precisa ser tratado como igual, precisa de voz, precisa contar sua história. O Sudeste precisa de muito mais, não sabe mais viver sem seus luxos, sem suas comodidades, não sabe sofrer, não sabe chorar e pedir ajuda, não consegue reconhecer seus erros, não pode mudar de opinião. O Nordeste aprendeu tudo isso e tem toda a disposição para ensinar. Vamos aproveitar esse momento?

Voltando para o meu estudo de história do brasil, descobri que assim é mais gostoso ler, ou talvez isso seja ler, e eu não sabia. Descobri que passar o olho por palavras não me ensina nada, mas plantá-las no mundo para colher novas idéias é um prazer e tem me ajudado a crescer muito. No nosso país falta sim a educação, mas antes da educação falta leitura.

Essa frase nunca fez tanto sentido para mim:

“Goethe dizia que para se entender uma pintura é preciso fazer um esboço. Tinha toda a razão: deviam dar um lápis e um pincel às pessoas em vez daqueles fones de ouvido com aquele blá-blá-blá…”

Henri Cartier Bresson

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