Fotografia não se ensina, se aprende.

  Vou começar contando para vocês como surgiu a ideia desse post: tenho um grupo de amigos com os quais frequentemente compartilho algumas fotos e algumas das postagens que coloco aqui, aproveitando para pedir opiniões e sugestões de novos temas. Há pouco tempo, um dos pedidos me chamou atenção, uma amiga, que já foi minha aluna no curso particular de fotografia que ofereço, me pediu para escrever sobre enquadramento. 

 Enquadramento???

  É tão mais fácil falar da luz, falar da composição ou até falar da parte mais difícil da fotografia que é o conceito/história. Falar de enquadramento é difícil porque ele é uma escolha que não existe sozinha, é uma escolha que tanto define quanto é definida por todos os outros fatores que citei anteriormente. Como ensinar o que se deve colocar, ou não dentro de um quadro? Poderia dar dicas de posicionamento e ângulo, poderia te falar sobre as lentes e a melhor forma de usar cada uma, poderia falar até de como se movimentar e se preparar fisicamente para melhorar seu enquadramento mas no final nada disso iria melhorar de forma significante suas fotos. Por isso, antes de falar de enquadramento, resolvi falar de fotografia.

  Então, vou fazer outra colocação que parece meio absurda (assim como o título) : UMA FOTO NÃO É UM REGISTRO.

  Como assim? Como um "fotógrafo documental" pode afirmar uma coisa dessas? Para defender minha afirmação vou citar talvez o mais famoso fotógrafo de paisagens, Ansel Adams, que disse:

 

" Um fotógrafo não faz uma fotografia apenas com sua câmera, mas com os livros que leu, os filmes que assistiu, as viagens que fez, as músicas que ouviu, as pessoas que amou."

 

  Assim como fazer uma foto é um exercício que vai infinitamente além da técnica, ver uma fotografia é muito mais do que ver uma imagem. Um registro, por definição, é a manutenção de informação para que ela possa ser acessada por diferentes pessoas afim de obter o mesmo conhecimento ou dado. Portanto, tanto fazer quanto olhar uma fotografia são atividades quase contrarias a isso. A fotografia registra apenas a luz que entra na câmera, a luz que sai da fotografia e entra em nossas mentes porém, carrega, ou desperta infinitas percepções, únicas a cada indivíduo. Então, fazer uma foto não é fazer um registro, mas transmitir uma mensagem.

  E o que isso tem a ver com enquadramento? Bom, se eu tiver que dar uma dica, ensinamento ou regra sobre enquadramento, ela seria: Coloque dentro do quadro tudo e somente o que é importante para você. Preencha seu quadro com o máximo, ou mínimo de informação necessária para que você consiga falar com você mesmo quando olhar aquela foto e se lembrar daquele momento sem distrações. Se você conseguir falar consigo mesmo com clareza, com alguma chance conseguirá também transmitir sua mensagem para outras pessoas.

  Como exemplo podemos pensar no que alguns fotógrafos colocam em seus quadros: Um grande "retratista" coloca no quadro os olhos e olhares, os gestos e as expressões e por meio deles a dor, a alegria, a memória ou o vazio. Um grande "paisagista" coloca no quadro a imensidão, a pequeneza, as distâncias, o clima, a temperatura. Um "documentarista" coloca objetos, roupas, cenários, atividades e com isso fala sobre o tempo, a cultura, os valores, as mudanças, as permanências e as histórias.

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 " Um grande "retratista" coloca no quadro os olhos e olhares, os gestos e as expressões e por meio deles a dor, a alegria, a memória ou o vazio."

Foto - Steve Mccurry

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 "Um grande "paisagista" coloca no quadro a imensidão, a pequeneza, as distâncias, o clima, a temperatura."

Foto - Ansel Adams

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"Um "documentarista" enquadra objetos, roupas, cenários, atividades e com isso fala sobre o tempo, a cultura, os valores, as mudanças, as permanências e as histórias."

Foto - Sebastião Salgado

 

  Fazer isso é uma tarefa dificílima, contínua e talvez inalcançável, mas é nessa busca que nascem grandes fotografias. É por isso que existe um conselho recorrente entre todos os grandes fotógrafos: Fotografe o que te interessa, o que você ama. Não faça fotos pensando no que irá agradar as outras pessoas (algo muito comum de se fazer na atual guerra por likes e seguidores). Fotografe para você e somente para você. Deixe sua mente (ou sua alma), pouco a pouco te guiar e te mostrar o que te toca. Aprender a fotografar é também aprender a se perceber, perceber como a vida te toca e como você toca a vida em retorno.

 

  E assim eu te digo: Eu nunca poderei te ensinar o que importa para você, mas você pode aprender!

 

  Bom, se você já leu até aqui vou te dar mais uma dica: Quer aprender enquadramento? Quer fotografar melhor? Não se preocupe tanto com as técnicas ou regras mas observe boas fotografias! Se imagine no lugar do fotógrafo, imagine a cena, pense onde ele estava, pense na posição do seu corpo, na altura dos seus olhos. Pense no tempo. Observe as idéias, sentimentos e sensações que a fotografia te traz. Replique fotografias que te inspiram, sinta como é fazê-las. Ouça e veja grandes fotógrafos falando, preste atenção no que realmente importa para eles. Por fim, aprenda a ouvir a si mesmo.

  Termino o post com uma foto que talvez não fale nada para você, mas que diz muito para mim. Uma imagem que me carrega para onde eu estava quando a fiz e me traz na memória toda a minha experiência desse momento e desse lugar.

 Um homem me oferece, com orgulho, um pouco de goma seca, uma amostra do trabalho que faz repetidamente há mais de 40 anos. Foto feita em Serrolândia - Sertão de Pernambuco 2017.

Um homem me oferece, com orgulho, um pouco de goma seca, uma amostra do trabalho que faz repetidamente há mais de 40 anos. Foto feita em Serrolândia - Sertão de Pernambuco 2017.

 

 

"Quem não gosta de esperar não pode ser fotógrafo."

 

Sebastião Salgado